top of page

SUICÍDIO, como lidei



Hoje dia 10 de Setembro é o dia mundial de prevenção ao suicidio. Pela primeira vez quero relatar minha história pessoal.


Perdi meu pai e minha melhor amiga, eu era mais velho que ela dois anos, ou seja, desde que ela nasceu estivemos juntos, ambos por enforcamento, mas ela após colocar a corda no pescoço cortou os pulsos. Meu pai em 2000 e minha amiga em 2019. E por mais que o tempo passe, não há um dia que eu deixe de pensar no porquê.


Nenhum deles deixou um bilhete. O impacto da notícia foi tão forte que me lembro do gosto que estava na minha boca, do cheiro da minha casa e os mínimos detalhes do que estava fazendo minutos antes do telefone tocar.


Eu ouvi a notícia e foi como se eu tivesse saído do meu corpo, em segundos me transportei para um lugar onde nao tinha som, paredes, um completo vazio, era como se eu estivesse flutuando em um nevoeiro, ou dentro de uma nuvem, um silêncio inimaginável e de repente volto para meu corpo e só escuto choro e gritos do outro lado da linha, o mundo girava numa velocidade alucinante.

Meus dedos acabaram de travar no teclado, o olho está lacrimejando e o choro é iminente, a raiva volta junto com a sensação de impotência e a pergunta que nunca sai da cabeça: Como eu não percebi? Com essa pergunta vem uma culpa que dói tanto, a dor da culpa é muito aguda e a sinto sempre que me lembro.

Minha mãe morreu com câncer, sinto saudades, mas confesso que raramente me lembro que ela está morta, me sinto tranquilo, já do meu pai e de minha amiga a angústia é tanta que tenho vontade de gritar o mais alto possível, de dar murros na parede. É inacreditável algo ficar tão marcado e doer tanto, mesmo depois de 21 anos.


Até hoje não sei o que pensar, não sei o que falar porque não consigo achar uma justificativa para o ato. É tudo tao louco que tanto com meu pai quanto com minha amiga, eu e todos os familiares queriamos acreditar que foi um assassinato e que eles nao se mataram. Procuravamos hematomas no corpo para ver se havia algum sinal de briga, nos apegavamos a todos os detalhes para não acreditar que fora um suicidio.

Meu irmão mais velho foi quem encontrou o corpo. Hoje escrevendo percebi que nunca falamos sobre esse momento, nunca falamos da morte de meu pai. Nunca falamos... Estou chocado com essa constatação. Não consigo me colocar no lugar do desespero de meu irmão e da irmã de minha amiga, e em 21 anos nunca tocamos no assunto, não conheço a dor dos meus irmãos, do que esse evento causou neles. Quando estamos juntos é como se não tivéssemos tido um pai.


Não sei dizer se quero saber de meu irmão qual foi a sensação, me angustia pensar que além do choque dele, ele precisou suportar o choque de minha mãe e de meu irmão mais novo. Como que em 21 anos nunca falamos disso? Que angustiante!!!! Se não fosse por esse texto eu nunca teria percebido isso.


Meu peito está pra explodir agora. Estou pensando como é chegar e contar pra sua mãe que seu pai, o marido dela, com quem dividiu a vida por mais de 30 anos, acabou de se matar. Olhar nos olhos, ver o desespero, se apoiar e dar apoio, não queria estar no lugar de meu irmão, só de pensar. minha respiração ficou completamente alterada.

Eu por morar fora de minha cidade natal, não tive que passar pelo constrangimento social que minha família passou, de ser apontado na rua, das questões levantadas pelas pessoas e sobretudo a vergonha. Também nunca falamos disso.


Me lembro que logo apos o sepultamento e depoimento na delegacia, sim depoimento, um suicidio e investigado como assassinato, o corpo nao pode ser cremado caso necessite uma exumação, enfim, eu queria tirar minha familia da casa onde eles viviam, retirá-los do ambiente onde tudo lembrava meu pai. Na hora me pareceu a coisa certa, no desespero pensei que amenizaria a dor deles.


Aluguei um apartamento no centro da cidade e fizemos a mudança, por um lado foi bom porque os afastei do julgamento dos vizinhos e curiosos. Possuímos um preconceito em relação a esse tipo de morte e tentamos achar respostas, um culpado e acabamos criticando a família por não ter observado ou evitarem o suicidio. Após isso eu voltei para minha rotina no Rio de Janeiro e minha mãe e meus irmãos reestruturaram a ordem familiar.


O apoio dos familiares, dos amigos, de Deus, da psiquiatria e da psicologia foram fundamentais para minha reestruturação e de minha família. Dizem que quem tem parentes suicidas deve tomar cuidado para não suicidar também. Fui entender isso mais tarde, pois no meu caso, com um pai suicida, é como se eu tivesse o consentimento para me matar também.


Enfim, minha família seguiu como pode, minha mãe desenvolveu um câncer e faleceu oito anos após a morte de meu pai, meu irmão mais velho teve câncer de pulmão, nunca fumou na vida, sobreviveu a uma cirurgia e um pós operatório terrível, eu e meu irmão mais novo depressão e ansiedade.


Hoje meus irmãos têm suas famílias, me deram sobrinhos lindos e muito amados e eu tenho a arte. A arte sempre esteve e está em mim, e nela eu me apoio. Posso dizer com certeza que ser artista é o que não me deixa sucumbir na vida.


118 visualizações21 comentários

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page